A sustentabilidade da saúde suplementar no Brasil enfrenta um desafio estrutural inadiável: a transição demográfica acelerada já está reconfigurando de forma agressiva as carteiras dos planos de saúde.
Dados de um novo estudo divulgado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) revelam uma expansão significativa na participação de beneficiários com 60 anos ou mais. Porém, uma análise minuciosa dos números desmistifica o maior temor do mercado: o de que o envelhecimento resulte, automaticamente, em um aumento descontrolado na frequência individual de consultas médicas.
Para as diretorias e conselhos de administração das operadoras, compreender a diferença entre o ‘efeito composição’ (mais idosos na carteira) e o ‘efeito intensidade’ (quantas vezes cada idoso vai ao médico) deixou de ser apenas uma leitura estatística. Essa distinção é o fator central para desenhar uma nova estratégia de planejamento assistencial, dimensionamento de rede e, sobretudo, de contenção de custos para os próximos anos.
Enquanto a entrada de jovens desacelera, grupo sênior cresce quase o dobro da média do setor
Entre 2019 e 2025, o mercado de planos de saúde médico-hospitalares registrou um crescimento total de 11,7%, saltando de 47,0 milhões para 52,5 milhões de vínculos. No entanto, o crescimento da população idosa dentro desse universo foi quase o dobro da média geral do setor.
A base de beneficiários com 60 anos ou mais passou de 6,6 milhões para 8,0 milhões, o que representa aumento de 1,4 milhão de vidas, ou 21,7% de alta no período. Com isso, a representatividade desse grupo na carteira geral subiu de 14,0% para 15,3%. Se olharmos para a faixa etária de 70 anos ou mais, a expansão foi ainda mais agressiva, atingindo 27,2% de crescimento.
Na contramão desse movimento, a atração e retenção de beneficiários mais jovens mostra sinais de estagnação. A faixa de 20 a 29 anos cresceu apenas 5,2% no mesmo período, enquanto o grupo de 30 a 39 anos sofreu uma leve retração de 0,4%.
Mais consultas no agregado, estabilidade na frequência individual
O envelhecimento da carteira traz consigo, invariavelmente, um aumento no volume total de atendimentos, já que a idade avança em paralelo à necessidade de cuidados com a saúde. Os dados comprovam essa premissa básica: em 2025, um beneficiário com 70 anos ou mais realizou, em média, de 1,4 a 2 vezes mais consultas do que um beneficiário na faixa de 0 a 19 anos, dependendo da modalidade da operadora.

Porém, o principal insight estratégico trazido pelo IESS é que a intensidade de uso por pessoa não sofreu um aumento generalizado. Ao analisar os beneficiários com 70 anos ou mais entre 2019 e 2025, o número de consultas por beneficiário:
- Caiu 5,7% nas Seguradoras Especializadas em Saúde.
- Caiu 4,2% na Medicina de Grupo.
- Caiu 3,3% nas Autogestões.
- Aumentou 4,9% nas Cooperativas Médicas.
- Aumentou 12,6% nas Filantropias.
Esse contraste demonstra que o aumento absoluto de idosos nas salas de espera se deve ao crescimento numérico dessa população na carteira (efeito composição), e não a um comportamento individual de buscar cada vez mais atendimento ao longo do tempo (efeito intensidade).
Mudança no perfil de atendimento: Queda no PS e alta no domicílio
As diferenças entre as idades também ditam a forma como a rede assistencial é utilizada, exigindo que as operadoras repensem a organização de seus serviços.
No pronto-socorro, houve uma redução notável entre a população com 70 anos ou mais, caindo de 1,2 para 1 consulta por beneficiário entre 2019 e 2025. O estudo aponta como hipóteses a substituição de atendimentos de urgência por cuidados programados e o forte avanço das teleconsultas a partir de 2020, que oferecem avaliação e triagem rápida sem exposição a riscos desnecessários em hospitais.
Em contrapartida, as consultas domiciliares indicam uma mudança no modelo de cuidado. O grupo de 70 anos ou mais foi o único a registrar aumento nesse tipo de serviço (passando de 3,5 para 3,9 consultas a cada 100 beneficiários). O atendimento em domicílio facilita o acompanhamento contínuo e preventivo, essencial para pacientes com limitação de mobilidade.
Alerta para a próxima década: A onda dos 40 a 49 anos
Para o planejamento de longo prazo, um dado crítico exige a atenção das diretorias de saúde suplementar: a faixa de 40 a 49 anos foi a que mais cresceu percentualmente entre 2019 e 2025.
Com uma alta de 32% e a adição de 2,3 milhões de vínculos, essa faixa contava com 9,3 milhões de beneficiários em 2025. Esse mesmo recorte migrará para a faixa de 50 e 60 anos na próxima década. Isso significa que o envelhecimento da carteira, e o consequente aumento da utilização assistencial, não é um fenômeno que está se esgotando, mas sim uma tendência que se intensificará nos próximos anos.
O que isso representa para a estratégia das operadoras?
O relatório do IESS reforça a relevância do mutualismo, o pilar do sistema onde os recursos de diferentes idades e riscos financiam a operação. Como o padrão de utilização e a estrutura etária estão mudando rapidamente, o planejamento da rede assistencial não pode se pautar apenas por um retrato do presente.
Para manter o equilíbrio e a sustentabilidade, as operadoras precisam agir em duas frentes estruturais:
1. Modelos de Remuneração e Prevenção: Investir na organização de linhas de cuidado programado e atenção primária, evitando que as condições crônicas dos beneficiários que hoje têm entre 40 e 50 anos evoluam para intervenções de alta complexidade na próxima década.
2. Gestão Financeira e Blindagem de Caixa: O envelhecimento da carteira eleva inevitavelmente os custos assistenciais globais. Como o reajuste das contraprestações enfrenta limites de mercado e regulações rigorosas, a tesouraria precisa ser a âncora da instituição. Estruturar o patrimônio financeiro por meio da governança de ativos e garantir rentabilidade superior à inflação médica (VCMH) são requisitos de sobrevivência.
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