Resultados do 2T26 na Saúde: Prestadores e diagnósticos avançam, enquanto operadoras enfrentam desafios e pressão de custos

O balanço financeiro do segundo trimestre de 2026 (2T26) das grandes empresas do setor de saúde suplementar no Brasil revela uma clara assimetria de desempenho. De um lado, redes hospitalares e grupos de medicina diagnóstica, como Rede D’Or, Mater Dei, Grupo Fleury e Dasa, apresentaram forte expansão de receitas, avanço duplo dígito nos lucros e alta taxa de ocupação operacional. Do outro lado, as operadoras de planos de saúde (OPS) expuseram um cenário marcado por extrema heterogeneidade: enquanto grupos consolidados como a Bradsaúde registraram forte rentabilidade, gigantes do setor como a Hapvida viram seus lucros recuarem 96% sob pressão de sinistralidade e custos, e operadoras de autogestão como a Postal Saúde acumularam prejuízos expressivos.

Segundo dados consolidados divulgados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), as 214 operadoras de planos de saúde com mais de cem mil clientes (que representam 84,2% do mercado de saúde suplementar) registraram um lucro líquido acumulado de R$ 8,5 bilhões no primeiro semestre de 2026 (1S26). Porém, a própria agência reguladora destaca que o desempenho é heterogêneo entre as companhias, com as operadoras de autogestão (especialmente as ligadas ao setor público) e parte do sistema Unimed figurando entre os piores resultados do setor.

Panorama Consolidado de Resultados Financeiros (2T26 e 1S26)

Bradsaúde (SAUD3): Lucro Salta 25% no 2T26 para R$ 1,11 Bilhão

A Bradsaúde (SAUD3), empresa de planos de saúde e rede de hospitais pertencente ao grupo Bradesco (BBDC4) e criada no início deste ano a partir da consolidação das operações de saúde do grupo, reportou lucro líquido de R$ 1,11 bilhão no segundo trimestre de 2026, representando uma alta de 24,8% em relação ao mesmo período do ano anterior (segundo informações divulgadas pelo InfoMoney). No acumulado do primeiro semestre (até junho), o lucro totalizou R$ 2,056 bilhões, crescimento de 32,9% em base anual.

A receita líquida do trimestre atingiu R$ 13,871 bilhões (+10,8% YoY), enquanto no semestre somou R$ 27,262 bilhões (+9,8%). A base total de clientes avançou 6,7%, alcançando 13,6 milhões de usuários ao final de junho — dos quais 4,1 milhões em planos de saúde e 9,5 milhões em planos odontológicos. O tíquete médio em saúde subiu 1,9%, enquanto o odontológico recuou 0,9%. A sinistralidade consolidada passou de 82,2% no 2T25 para 83,8% no 2T26. O resultado operacional cresceu 17%, para R$ 1,5 bilhão. Ao final do período, a companhia registrou R$ 29,553 bilhões em ativos financeiros (caixa e aplicações), garantindo sólida posição de liquidez regulatória e operacional.

Rede D’Or (RDOR3): Lucro Cresce Quase 10% com Avanço Hospitalar e Queda na Sinistralidade da SulAmérica

A Rede D’Or apurou lucro líquido de R$ 1,2 bilhão no segundo trimestre de 2026, avanço de 9,7% comparado ao 2T25 (conforme reportado pelo Valor Econômico). O EBITDA subiu 18,2%, alcançando R$ 2,9 bilhões, com margem EBITDA atingindo 26,2% (+0,4 p.p. anual). A receita líquida consolidada cresceu 5,6%, para R$ 14,9 bilhões. Metade da receita veio da operação hospitalar (+9,8%), enquanto a outra metade referiu-se à SulAmérica (+6,9%).

Na divisão hospitalar, os 76 hospitais do grupo realizaram 151 mil procedimentos (+10,6% YoY), com cirurgias eletivas crescendo 11,5% e representando 72,8% do volume total. A taxa de ocupação dos 13,6 mil leitos ficou em 80,2% (-2,7 p.p.), e o tíquete médio subiu 9,1%, para R$ 12,4 mil. O segmento de oncologia avançou 22,4%, registrando receita de R$ 1,2 bilhão, impulsionado por alta de 6,1% no tíquete médio e expansão de 15,2% nas infusões. Os investimentos (ex-M&A) somaram R$ 888,3 milhões no trimestre (+31,4%), com foco no pipeline de 2,7 mil novos leitos previstos até 2028.

Na SulAmérica, a taxa de sinistralidade caiu 3,2 p.p. na comparação anual, fixando-se em 78,1% no 2T26. O resultado reflete a aplicação de reajustes de preços e a intensificação do combate a fraudes, reembolsos indevidos e coordenação de cuidado. A carteira total somou 6,1 milhões de beneficiários (+9,7% YoY), sendo 3,2 milhões em planos de saúde (+4,5% YoY, com adição líquida de 136 mil vidas no trimestre).

Rede Mater Dei (MATD3): Lucro Ajustado Dispara 66% no 2T26 com Alta Ocupação de Leitos

A Rede Mater Dei (MATD3) registrou lucro líquido ajustado de R$ 45 milhões no segundo trimestre de 2026, uma expansão de 66% frente aos R$ 27 milhões do 2T25 (conforme dados do Money Times). No primeiro semestre, o lucro ajustado somou R$ 81,3 milhões (+71,9% YoY). O avanço foi sustentado pela elevada taxa de ocupação de leitos (83,9% ao final de junho e 84,1% na média do semestre), além da expansão em oncologia, cirurgia robótica e uso de IA no prontuário eletrônico.

O EBITDA ajustado atingiu R$ 139 milhões no 2T26 (+20,0% YoY), e a receita líquida consolidada avançou 12,4%, somando R$ 614 milhões no trimestre (R$ 1,188 bilhão no semestre, +13,7%). A dívida líquida encerrou em R$ 763 milhões (-1,1%), reduzindo a alavancagem de 1,6x para 1,5x Dívida Líquida/EBITDA ajustado. A companhia realizou o pré-pagamento de R$ 200 milhões em debêntures em julho e destinou R$ 27 milhões em Capex no trimestre, mantendo o plano de expansão com o novo hospital no bairro de Santana, em São Paulo, com previsão de obras para setembro de 2026 e entrega em 2029.

Reestruturação da Dasa (DASA3): Turnaround Operacional, Redução do Prejuízo e Evolução na Rede Américas

A Dasa apurou um EBITDA de R$ 446 milhões no segundo trimestre de 2026, avanço de 53% em relação ao 2T25, com a margem EBITDA expandindo 5,8 pontos percentuais, para 20,1% (conforme dados divulgados pelo Valor Econômico). Os dados desconsideram os 14 hospitais transferidos para a joint-venture com a Amil e os ativos alienados em 2025 (Mantris, Hospital São Domingos e laboratório na Argentina). A gestão atribuiu a evolução do EBITDA ao programa de eficiência operacional, que promoveu corte de 25% nas despesas, e aos resultados da Rede Américas.

Na última linha do balanço, a Dasa reportou prejuízo líquido de R$ 35 milhões, o que representa uma redução de 92,3% na comparação com o prejuízo do 2T25. A receita bruta consolidada cresceu 8%, somando R$ 2,4 bilhões, puxada pela medicina diagnóstica (833 unidades), que faturou R$ 2,2 bilhões (+9%). Já os demais negócios faturaram R$ 208 milhões (-4%), impactados pela retração de 15,55% na oncologia devido ao maior rigor no credenciamento de operadoras. O lucro bruto ajustado da medicina diagnóstica subiu 3,9% (R$ 675 milhões), embora a margem tenha recuado 1,6 p.p. para 33,2% devido ao aumento do processamento de exames para terceiros e equivalência patrimonial.

A dívida líquida da Dasa caiu 19%, para R$ 5,6 bilhões, com alavancagem em 3,5x EBITDA (ou 2,91x desconsiderando o efeito da venda do Hospital São Domingos). A geração de caixa livre somou R$ 292 milhões no trimestre. Em paralelo, a Rede Américas (joint-venture 50/50 entre Dasa e Amil, com 25 hospitais e 4,3 mil leitos) registrou receita líquida de R$ 3,2 bilhões (+12,4%) e reduziu seu prejuízo em 73,6%, para R$ 37 milhões. O EBITDA da Rede Américas cresceu 38,7% (R$ 441 milhões, margem de 13,7%), reduzindo sua alavancagem de 2,74x para 1,69x Dívida Líquida/EBITDA, com dívida total em R$ 2,8 bilhões (-5,3%).

Desafios da Oncoclínicas (ONCO3): Queda no Faturamento, EBITDA Negativo e Pressão sobre a Alavancagem

A Oncoclínicas (ONCO3) reportou um prejuízo líquido de R$ 475,7 milhões no segundo trimestre de 2026, aprofundando o resultado negativo de R$ 142,3 milhões apurado em igual período de 2025 (de acordo com informações do Estadão / Broadcast). De abril a junho, a receita líquida da companhia totalizou R$ 1,047 bilhão, retratando uma queda de 28,5% na comparação anual.

O EBITDA da companhia ficou negativo em R$ 314,4 milhões no 2T26, recuo de 791,5% em relação ao ano anterior. O resultado financeiro líquido no trimestre foi negativo em R$ 168,8 milhões. Ao término de junho, a dívida líquida da Oncoclínicas somava R$ 3,558 bilhões, uma alta de 15,0% em comparação ao fechamento de 2025. Com isso, a relação entre Dívida Líquida e Patrimônio Líquido saltou para 36,21 vezes (ante 2,91 vezes registradas no final do exercício de 2025).

Grupo Fleury (FLRY3): Lucro Líquido Bate Expectativas e Cresce 45,7% para R$ 221,9 Milhões

O Grupo Fleury (FLRY3) obteve lucro líquido de R$ 221,9 milhões no 2T26, um crescimento de 45,7% sobre o 2T25, superando o consenso Bloomberg (R$ 172 milhões), segundo o Money Times. O EBITDA somou R$ 612,9 milhões (+15,2% YoY), com margem EBITDA de 26,5%. A receita líquida avançou 14,4%, alcançando R$ 2,31 bilhões.

No segmento B2C, a receita cresceu 15% (crescimento orgânico de 11,6%), com a marca Fleury avançando 12% na categoria premium. Demais marcas em SP cresceram 27,7% (12,9% orgânico), Minas Gerais subiu 19,2% (14,3% orgânico), Rio de Janeiro cresceu 8,9% e regionais avançaram 10,2%. Os atendimentos totalizaram 4,7 milhões (+17,2%), e o volume de exames atingiu 46,7 milhões (+17,7%), impulsionado também pelo efeito inorgânico das aquisições da Confiance, Hemolab e LSL. A geração de caixa operacional subiu 42,9%, para R$ 695,8 milhões, mantendo a alavancagem conservadora em 1,1x Dívida Líquida/EBITDA.

Hapvida (HAPV3): Lucro Ajustado Recua 96% sob Sazonalidade Desfavorável e Alta Utilização

A Hapvida (HAPV3) reportou lucro líquido ajustado de R$ 12,5 milhões no 2T26, queda de 95,8% em relação aos R$ 299,5 milhões do 2T25 (conforme dados divulgados pelo InfoMoney). O lucro contábil ficou negativo em R$ 217,1 milhões. A receita líquida avançou 3,9%, para R$ 7,97 bilhões, puxada pelos reajustes de mensalidades. A receita de planos médicos subiu 3,6% (R$ 7,79 bilhões) e os serviços médico-hospitalares cresceram 11,7% (R$ 242,5 milhões). O tíquete médio dos planos de saúde alcançou R$ 305,9/mês (+5,7% YoY).

A base de saúde encerrou junho com 8,67 milhões de vidas (redução de 16 mil usuários no trimestre por limpeza de carteiras menos rentáveis e inadimplência), enquanto a base odontológica cresceu para 7,29 milhões (+103 mil vidas no trimestre). A sinistralidade caixa subiu 1,3 p.p. no ano e 3,0 p.p. no trimestre, atingindo 75,2%, pressionada pela sazonalidade, maior frequência de uso, maior processamento de contas médicas (R$ 6 bilhões, +5,7%) e aumento das despesas judiciais. O EBITDA ajustado caiu 44,3%, para R$ 504,4 milhões, com margem EBITDA recuando de 11,8% para 6,3%. A dívida líquida alcançou R$ 5,4 bilhões (+34,4% YoY), com alavancagem subindo para 1,61x Dívida Líquida/EBITDA. A companhia manteve R$ 8,05 bilhões em caixa/aplicações e superávit regulatório de R$ 5,25 bilhões.

Qualicorp (QUAL3): Lucro Ajustado Recua 11,5% com Encerramento de Parcerias e Queda de Receita

A Qualicorp (QUAL3) registrou lucro líquido ajustado de R$ 16,1 milhões no segundo trimestre de 2026, queda de 11,5% em comparação ao 2T25 (segundo reportado pelo Estadão). No acumulado do semestre, o lucro foi de R$ 35,3 milhões (+8,4% YoY). O resultado do trimestre reflete a menor base média de vidas decorrente do encerramento da última parceria com uma operadora de menor porte.

A receita líquida no 2T26 somou R$ 317,3 milhões (-7,5% YoY), e o EBITDA atingiu R$ 120,8 milhões (-15,1% YoY). A carteira de beneficiários encerrou junho com 851,9 mil vidas (-4,7% YoY). Na gestão de passivos, a dívida líquida recuou 16,0%, para R$ 779,4 milhões, reduzindo a alavancagem para 1,41x Dívida Líquida/EBITDA ajustado (-0,12 p.p. vs 2T25).

Postal Saúde: Prejuízo de R$ 844 Milhões em 2025 Reflete Crise de Repasses dos Correios

A Postal Saúde, operadora de autogestão responsável pelos planos de saúde de cerca de 189 mil beneficiários (empregados dos Correios e dependentes), registrou prejuízo líquido de R$ 844,4 milhões no exercício de 2025 (conforme demonstrações financeiras divulgadas pelo G1). O resultado negativo é explicado pela falta de repasses financeiros por parte dos Correios, o que obrigou a operadora a reconhecer R$ 865 milhões em perdas de receitas estimadas e elevar a provisão para perdas de R$ 350,3 milhões (2024) para R$ 857,5 milhões (2025).

Em razão da escassez de repasses, os ativos da Postal Saúde encolheram 65%, passando de R$ 557 milhões para R$ 193 milhões, enquanto o passivo (dívidas) saltou 85%, superando R$ 1,1 bilhão. A administração da operadora alertou para o risco sobre a continuidade das operações. Em relação aos atendimentos, as reclamações na ANS cresceram 44% no primeiro semestre de 2025 comparado a 2024, totalizando 1.317 registros até junho de 2026. Em janeiro de 2026, a operadora recebeu um aporte dos Correios equivalente a cerca de 50% dos passivos em aberto para negociar débitos com a rede credenciada.

Análise XVI Finance: A Divergência entre a Ponta Prestadora e as Fontes Pagadoras

Os dados do 2T26 evidenciam uma dinâmica clara no mercado de saúde suplementar: a ponta prestadora e diagnóstica que promoveu adequação de custos e reestruturação interna vem conseguindo capturar margem e expandir receitas. Grupos como Mater Dei (+12,4% de receita), Fleury (+14,4%) e Dasa (+53% no EBITDA e turnaround no prejuízo) demonstram que ganhos de eficiência operacional e repasse de preços sustentam o desempenho no período.

Por outro lado, o segmento de operadoras e nichos específicos (como oncologia pura) lidam com forte volatilidade de custos assistenciais, sinistralidade elevada e problemas graves de liquidez em autogestões. Mesmo com o lucro líquido acumulado do setor reportado em R$ 8,5 bilhões pela ANS no primeiro semestre, esse número esconde uma forte dispersão entre companhias altamente capitalizadas (como a Bradsaúde) e operadoras pressionadas por despesas médicas e judiciais.

Nota importante: Esta análise baseia-se nos balanços e demonstrações financeiras divulgados oficialmente pelas companhias e pela ANS até o momento. Esta publicação poderá ser atualizada continuamente à medida que novos balanços relevantes do setor forem publicados no mercado.


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