O setor de saúde suplementar vive um momento de paradoxo: enquanto as operadoras consolidam sua recuperação financeira com lucros e sinistralidade controlada, os prestadores de serviço enfrentam uma pressão crescente no fluxo de caixa. É o que revela a 8ª edição do Balanço do Observatório Anahp, divulgada em dezembro de 2025, com dados consolidados até o terceiro trimestre do ano.
O estudo, que cruza dados da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) e da ANS, mostra que, embora o cenário macroeconômico do setor tenha saído da UTI, a dinâmica operacional entre pagadores e prestadores continua tensa, marcada por longos prazos de pagamento e alto índice de glosas administrativas.
Abaixo, a XVI Finance analisa os principais destaques do relatório e o que eles sinalizam para a gestão hospitalar.
O Gargalo do Fluxo de Caixa: Recebimento x Pagamento
Um dos indicadores mais críticos levantados pelo Observatório é o Prazo Médio de Recebimento. Este índice, que mede o tempo que os hospitais levam para receber das operadoras após o faturamento, atingiu 78,51 dias no 3º trimestre de 2025.
Este é o maior patamar da série histórica recente apresentada (comparativo desde 2022), representando um aumento em relação aos 77,24 dias do mesmo período de 2023. Na ponta oposta, o Prazo Médio de Pagamento (o tempo que os hospitais levam para pagar seus fornecedores) caiu para 46,30 dias.
Tabela: Descompasso no Fluxo de Caixa (Em Dias)
| Indicador | 3º Trimestre 2024 | 3º Trimestre 2025 | Variação |
| Prazo de Recebimento (Hospitais recebem) | 66,58 dias | 78,51 dias | +11,9 dias |
| Prazo de Pagamento (Hospitais pagam) | 47,68 dias | 46,30 dias | -1,38 dias |
| Gap de Caixa | 18,9 dias | 32,2 dias | Piora no ciclo |
A conta do capital de giro: O descompasso é evidente. Os hospitais pagam suas obrigações em cerca de 46 dias, mas só recebem pelas receitas geradas quase 32 dias depois. Esse “gap” exige das instituições um esforço financeiro robusto para manutenção do capital de giro, pressionando a liquidez.
Glosas: Melhora no índice, mas volume ainda preocupa
A gestão de glosas (faturas não pagas ou contestadas pelas operadoras) continua sendo um dos maiores atritos do setor.
- Glosa Inicial: O relatório aponta uma queda positiva na glosa inicial gerencial, que fechou o trimestre em 18,02%88. Embora seja uma redução significativa em comparação aos 26,70% registrados no 3º trimestre de 20249, o volume ainda é alto: significa que quase 20% de toda a produção faturada fica retida para negociação.
- Glosa Final (Aceita): O dado mais revelador é a discrepância entre o que é glosado inicialmente e o que é efetivamente devido. A glosa aceita contábil foi de apenas 1,84%.
Tabela: Funil de Glosas (3º Trimestre 2025)
| Tipo de Glosa | % sobre a Receita | Significado |
| Glosa Inicial | 18,02% | Valor retido preventivamente pela operadora. |
| Glosa Aceita (Final) | 1,84% | Perda real de receita após recursos. |
| Diferença | ~16,18% | Faturamento retido indevidamente ou por burocracia. |
Análise: O fato de a glosa cair de 18% (inicial) para menos de 2% (final) indica que a grande maioria das retenções não se sustenta tecnicamente, servindo muitas vezes como mecanismo de postergação de pagamento, o que agrava o ciclo financeiro já alongado dos hospitais.
Operadoras: Recuperação e Lucratividade
Do lado das fontes pagadoras, o cenário desenhado pela Anahp é de estabilidade e recuperação.
- Resultado Positivo: Cerca de 77,1% das operadoras fecharam os nove primeiros meses de 2025 com resultado líquido positivo.
- Lucro: O resultado líquido acumulado do setor (DRE) foi de R$ 16,62 bilhões, representando uma margem de 5,84% sobre as receitas.
- Sinistralidade Controlada: O índice de sinistralidade geral do setor ficou em 79,3%, patamar inferior aos níveis pré-pandemia (que giravam em torno de 83%), indicando uma gestão de custos assistenciais mais rígida e recomposição de receitas.
Tabela: Desempenho Financeiro das Operadoras (Acumulado 2025)
| Indicador | Resultado |
| Receita Total | R$ 284,55 bilhões |
| Sinistralidade | 79,31% |
| Resultado Líquido (Lucro) | R$ 16,62 bilhões |
| Margem Líquida | 5,84% |
| Operadoras no Azul | 77,1% do mercado |
Reajustes e VCMH
O relatório também traz dados sobre a inflação médica e os reajustes aplicados:
- VCMH: A Variação de Custos Médico-Hospitalares (VCMH) fechou 2024 em 6,67%, a menor da série histórica (excetuando o período atípico da pandemia).
- Reajustes Corporativos: A média de reajuste dos planos coletivos empresariais nos 12 meses até agosto de 2025 foi de 15,57%. Apesar de alto, o número mostra uma desaceleração em relação aos picos de 2023.
Desempenho Operacional dos Hospitais
Apesar dos desafios financeiros, a operação hospitalar mostrou aquecimento:
- Taxa de Ocupação: Atingiu 79,88% no 3º trimestre de 2025, a maior taxa da série histórica recente, superando os 77,04% de 2022.
- Receita: A receita líquida por paciente-dia cresceu para R$ 7.072,09, um aumento nominal expressivo frente aos R$ 6.569,05 do ano anterior.
- EBITDA: Em contrapartida, a margem EBITDA apresentou leve queda, fechando em 12,31%, pressionada principalmente pelo custo de pessoal, que representa 36,11% das despesas totais.
O Que Isso Representa para o Setor
Os dados do Observatório Anahp confirmam que o setor de saúde suplementar superou a crise de sinistralidade pós-Covid, mas transferiu a pressão para o ciclo financeiro.
- Eficiência na Gestão de Ciclo de Receita: Para os hospitais, a prioridade máxima torna-se a gestão do ciclo de receita. Com prazos de recebimento beirando 80 dias, qualquer falha no faturamento ou no recurso de glosas pode comprometer a operação.
- Sustentabilidade Assimétrica: Enquanto as operadoras recuperam margens (lucro de R$ 16,6 bi), os prestadores veem suas margens EBITDA comprimidas. Isso tende a endurecer as negociações de reajuste contratual entre hospitais e planos.
- Necessidade de Dados: O abismo entre a glosa inicial (18%) e a final (1,8%) reforça a necessidade de auditorias mais eficientes e uso de tecnologia para reduzir o atrito administrativo que drena recursos do sistema.
Para a XVI Finance, este cenário exige dos gestores hospitalares uma estratégia financeira defensiva, com foco total na redução do prazo médio de recebimento e na eficiência operacional para proteger a margem EBITDA.
FAQ: Destaques do Observatório Anahp (3º Trimestre 2025)
Como está a situação financeira das operadoras? O setor apresenta recuperação sólida. 77,1% das operadoras tiveram resultado positivo, acumulando um lucro líquido de R$ 16,62 bilhões e sinistralidade controlada em 79,3%.
Qual o principal desafio para os hospitais atualmente? O fluxo de caixa. O prazo médio para receber das operadoras subiu para 78,51 dias, enquanto o prazo de pagamento a fornecedores é de apenas 46,30 dias.
Como está o índice de glosas? A glosa inicial (valor retido preventivamente) caiu para 18,02%, mas ainda é considerada alta. Deste total, apenas 1,84% se confirma como glosa efetiva ao final do processo, indicando alto volume de contestações administrativas.
Houve aumento na ocupação dos hospitais? Sim. A taxa de ocupação operacional geral subiu para 79,88%, o maior nível dos últimos quatro anos para o período.
Qual foi o comportamento da VCMH (Inflação Médica)? A VCMH Brasil (Arquitetos da Saúde) fechou 2024 em 6,67%, marcando o menor índice da série histórica (excluindo o ano atípico da pandemia).

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