Mapeamento Inédito: 57% dos Hospitais Brasileiros estão no Nível Iniciante em Experiência do Paciente

O setor de saúde brasileiro vive um momento de transição entre o discurso humanizado e a efetiva estruturação de processos. É o que revela um estudo inédito realizado pela Patient Centricity Consulting em celebração aos seus 10 anos de atuação.

O levantamento, que contou com a participação de 264 instituições de saúde com respostas completas, traça um panorama realista sobre a maturidade da gestão, o uso de indicadores e o impacto da acreditação na qualidade assistencial.

O estudo aponta que, embora o tema esteja em evidência, a prática ainda é incipiente: 57,1% das instituições foram classificadas no nível Iniciante de maturidade em gestão da Experiência do Paciente (EP).

Nível de Maturidade% das InstituiçõesAnálise
Iniciante57,1%A maioria das instituições ainda está em estágios iniciais de estruturação.
Intermediário39,3%Instituições com processos em desenvolvimento, mas ainda não consolidados.
Avançado3,6%Apenas uma pequena fração atingiu a excelência na gestão da EP.

Perfil das Instituições: Concentração Regional e Complexidade

O mapeamento evidenciou disparidades regionais significativas na condução do tema no Brasil. A região Sudeste concentra a maioria das iniciativas, representando 54,9% das instituições participantes, com destaque para o estado de São Paulo (43,2%).

Em contrapartida, as regiões Norte e Centro-Oeste apresentaram baixa representatividade, sugerindo que o cuidado centrado no paciente pode estar menos difundido nessas localidades devido a limitações estruturais.

Quanto ao perfil assistencial das instituições analisadas:

  • 61% são de atendimento Terciário (alta complexidade).
  • 43,6% são instituições Públicas.
  • 31,1% são instituições Privadas.
  • 22% são Filantrópicas.

A Lacuna entre Estrutura e Orçamento

Um dos pontos mais críticos levantados pelo estudo é a discrepância entre a existência de uma área formal e a alocação de recursos para que ela funcione.

Embora 56% das instituições afirmem possuir uma estrutura formal para a gestão da Experiência do Paciente, a operacionalização enfrenta barreiras financeiras severas:

  • 54,2% das instituições não possuem previsão de recursos financeiros destinados à gestão da EP.
  • Apenas 26,5% afirmam ter recursos alocados.
  • Entre as que investem, 18,1% aplicam até R$ 50.000,00 anuais, indicando um investimento limitado.

Além disso, as equipes ainda são enxutas. Em 54% das instituições, a equipe dedicada à Experiência do Paciente é composta por até 3 profissionais, sendo a categoria de Enfermagem a mais prevalente na liderança (35,2%), seguida pela Administração (22,3%).

O “Apagão” de Métricas Estruturadas

A gestão baseada em dados ainda é um desafio distante para a maioria do setor. O estudo revela uma fragilidade preocupante na mensuração padronizada da experiência.

De acordo com o levantamento, 88% das instituições não utilizam métricas estruturadas reconhecidas internacionalmente. O cenário de uso de ferramentas é o seguinte:

  • 15,2% utilizam o NPS (Net Promoter Score).
  • 13,6% utilizam pesquisas de satisfação elaboradas pela própria instituição.
  • 5,7% aplicam o HCAHPS (Hospital Consumer Assessment of Healthcare Providers and Systems).
  • 0,8% utilizam PROM (Patient Reported Outcomes Measures) e 0,4% utilizam PREM.

A falta de disseminação do conhecimento técnico também é uma barreira: apenas 50,9% dos gestores afirmam que os profissionais da instituição conhecem as métricas ou indicadores de experiência do paciente.

Acreditação como Divisor de Águas na Maturidade

A análise cruzada dos dados demonstra que a acreditação hospitalar é o fator determinante para a evolução da Experiência do Paciente no Brasil. Instituições acreditadas (50,6% da amostra) apresentam indicadores de gestão consistentemente superiores.

O estudo identificou uma forte correlação estatística entre o status de acreditação e a robustez da gestão:

Indicador de GestãoInstituições AcreditadasImpacto Observado
Estrutura Formal62,9% possuem estrutura3x mais chances de ter estrutura formalizada.
Orçamento72,7% têm previsão orçamentáriaApenas 31,1% das não acreditadas possuem orçamento.
Capacitação65,5% têm times capacitadosA acreditação mais que dobra a chance da equipe ser treinada.
Maturidade73,3% estão “bem estabelecidas”A maioria das não acreditadas está em fases iniciais.
Fonte: Patient Centricity Consulting, 2025.

O Que Isso Representa para o Setor

Os dados do estudo da Patient Centricity Consulting desenham um cenário onde a Experiência do Paciente está deixando de ser apenas um conceito humanista, mas ainda luta para se consolidar como ferramenta estratégica de gestão.

  • Desafio Cultural e Financeiro: Os principais impedimentos citados para a evolução da área foram a transformação cultural (18,9%), o dimensionamento reduzido de pessoal (15,5%) e a falta de capacitação (14,8%). Sem investimento e treinamento, a “centralidade no paciente” corre o risco de permanecer apenas no discurso.
  • Maturidade Desigual: Com 57,1% das instituições no nível iniciante (score de 1 a 3 pontos) e apenas 3,6% no nível avançado, há um longo caminho para a profissionalização do setor.
  • O Papel da Gestão da Qualidade: A forte correlação com a acreditação sugere que o caminho mais viável para estruturar a experiência do paciente é atrelá-la aos processos de qualidade e segurança já existentes, convertendo-a em política institucional e não apenas em projetos isolados.

Para a XVI Finance, estes indicadores reforçam a urgência de profissionalizar a gestão hospitalar. A sustentabilidade das instituições de saúde passa, obrigatoriamente, pela capacidade de medir e melhorar a experiência do paciente com base em dados, saindo do empirismo para uma gestão baseada em evidências e valor.

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